EDITORIAL - A ambiguidade política de ACM Neto já não cabe no Brasil de hoje
- Boletim Baiano
- 25 de nov. de 2025
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A política brasileira atravessa um momento decisivo, marcado por tensão institucional, ataques explícitos às liberdades civis e um embate ideológico cada vez mais evidente. Em um ambiente como esse, espera-se que as principais lideranças assumam posições claras e firmes. No entanto, mais uma vez, ACM Neto repete aquilo que já se tornou sua marca registrada: a neutralidade conveniente, a omissão calculada. O silêncio do ex-prefeito de Salvador (2012–2020) e pré-candidato a governador diante dos acontecimentos mais recentes no estado e no país, que exigem posicionamento, não demonstra prudência; revela, isso sim, a incapacidade deliberada de assumir qualquer lado quando o tema envolve princípios, valores e coragem política.
Nos últimos dias, o país assistiu à prisão do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, que vinha sendo silenciado por mais de 100 dias, submetido a uma censura prévia sem precedentes e impedido de exercer plenamente seus direitos constitucionais. A escalada de decisões judiciais que atropelam garantias individuais escancara um problema profundo de limites na atuação do Judiciário. O próprio ministro Luiz Fux já alertou para essa tensão ao afirmar que “nós não somos juízes eleitos”, criticando a postura de magistrados que extrapolam sua função institucional. Para ele, o Judiciário deve responder ao povo: “todo poder emana do povo e em prol do povo é que se exercem as funções públicas”. Quando os juízes ultrapassam seu papel natural, a democracia corre sério risco.
Independentemente das divergências ideológicas, trata-se de um episódio de enorme impacto institucional. Ainda assim, ACM Neto, político assumidamente de centro e figura emblemática do famigerado Centrão, preferiu o caminho mais cômodo: permaneceu em silêncio. Nem ele, nem seus aliados ousaram protestar contra os abusos processuais, a prisão ou a escalada do ativismo judicial. Esse mesmo grupo tampouco pressiona o presidente da Câmara, Hugo Motta, para pautar a anistia para os presos do 8 de janeiro e outros investigados. Enquanto famílias esperam por justiça e garantias constitucionais são corroídas, eles se calam, mas, ao mesmo tempo, esperam o apoio firme da direita baiana.
Esse afastamento voluntário dos temas centrais da crise não é prudência. É covardia política. É a recusa deliberada de encarar os debates que definirão o futuro da nação. E o alerta de Rui Barbosa só reforça a gravidade desse silêncio: “a pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário, pois contra ela não há a quem recorrer.”
Essa omissão não se limita ao cenário nacional; ela se repete no âmbito estadual e municipal. Recentemente, um episódio em Salvador chamou atenção: a ação de inconstitucionalidade protocolada pelo PSOL no Supremo Tribunal Federal contra a Lei Municipal nº 9.893/2025, que autoriza o uso da Bíblia como material paradidático de caráter cultural e histórico. A legislação não impõe qualquer prática religiosa aos alunos, apenas reconhece o valor da Bíblia como patrimônio literário e civilizacional. Ainda assim, o PSOL levou a questão ao STF. Para quem pretende exercer liderança, recuar em temas fundamentais da identidade cultural e moral da população baiana, onde cerca de 80,3% se declaram cristãos entre católicos e evangélicos, não é apenas um erro, mas um claro sinal de desconexão com a realidade e os valores da sociedade. Mais uma vez, o posicionamento de ACM NETO simplesmente não existiu, evidenciando que o politico prefere a conveniência do silêncio à defesa efetiva dos princípios e interesses da maioria dos baianos.
A falta de posicionamento firme aprofunda ainda mais o desgaste. Ao se esquivar de temas centrais, Neto reduz de forma evidente sua capacidade de representar um eleitorado que exige clareza, firmeza e convicção. Para os conservadores, cristãos e liberais, esse silêncio não soa como moderação - soa como conivência e covardia política. E essa percepção já se tornou dominante. Entre analistas e militantes, a crítica é direta e difícil de rebater: “os deputados aliados de ACM Neto, plenamente integrados ao sistema, votam alinhados com o governo Lula, abertamente socialista/comunista — em praticamente todas as pautas que atingem princípios estruturantes da direita; o silêncio agora apenas escancara esse alinhamento disfarçado”.
Questões como liberdade religiosa, limites do Judiciário, garantias individuais, aumento de penas, transparência, redução de impostos e defesa da propriedade privada são pautas fundamentais, e o Congresso Nacional deve pautar a anistia para reparar as injustiças cometidas pelo Poder Judiciário. A população exige posicionamento firme de qualquer liderança que almeje relevância nacional. Não se trata de escolher um lado, mas de assumir responsabilidade pública.
O eleitorado está cansado de políticos que se omitem e realizam negociações obscuras nos bastidores. Quer clareza, firmeza e coerência e já não aceita, como no passado, ser tratado como massa de manobra em um jogo de poder cuidadosamente encoberto pela imprensa e pelas elites políticas.
A Bahia e o Brasil precisam de mais políticos que compreendam que “liderança” não se exerce apenas com gestos administrativos, mas com coragem moral. Permanecer em cima do muro pode até ter funcionado no passado, mas hoje não se sustenta mais.
O cenário mudou. A sociedade está mais informada, mais crítica e absolutamente intolerante com ambiguidades. O eleitor baiano quer saber quem é quem — e quer isso de forma clara, direta e pública. Exige líderes dispostos a assumir riscos, tomar decisões firmes e mostrar, sem hesitação, de que lado da História realmente estão.
Quem se omite, silencia ou negocia valores e princípios, não tem lugar neste novo tempo. A “liderança” verdadeira se mede pela coragem de enfrentar o certo, mesmo quando isso custa caro politicamente. A Bahia não pode mais esperar por neutralidade ou conveniência.
ACM Neto pode continuar apostando em sua estratégia tradicional de neutralidade calculada. Mas o Brasil mudou, a Bahia mudou, e a direita baiana mudou. O tempo do muro acabou. Ou ele desce: com clareza e coragem ou será ultrapassado por lideranças que entenderam que, no cenário atual, hesitação é sinônimo de irrelevância.
A política não perdoa o vácuo. E a sociedade, hoje, não aceita mais ser enganada pelo roteiro antigo do teatro das tesouras.









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